Do sofrimento se faz felicidade

por Priscilla Lima

“A medida da vida”, biografia de Virginia Woolf de Herbert Marder, publicada pela Cosac Naify em 2011, é um livro primoroso. Assim como todos os livros da Cosac, o trabalho editorial ficou belíssimo. A capa, com uma foto do rosto de Virginia em tons esverdeados e cinza, possui um aspecto belo e melancólico. O livro é composto por um prelúdio, 18 capítulos e um apêndice, seguido da bibliografia, agradecimentos, índice remissivo, e legenda e créditos das imagens utilizadas, totalizando 578 páginas. Na primeira orelha do livro, temos uma breve e bela apresentação da biografia feita por Maria Rita Kehl, que, confesso, foi o que me encorajou a comprar o livro.

Marder se propõe a biografar a vida de Virginia a partir dos seus últimos 10 anos, vividos na década de 1930. Como ressaltado por Kehl e destacado por Marder, esse foi um dos períodos mais estáveis – financeira e emocionalmente –, felizes e produtivos na vida do casal Woolf. Foi nesse período que Virginia escreveu: ‘As ondas’ (1931), ‘Flush: memórias de um cão’ (1933), ‘Freshwater: a comedy’ (1935), ‘Os anos’ (1937), ‘Três guinéus’ (1938), ‘Robert Fry: a biography’ (1940) e ‘Entre os atos’ (1941), além de vários ensaios e outros textos. O final da década anterior tinha se mostrado igualmente produtiva, quando publicou ‘Mrs. Dalloway’ (1925) e ‘Orlando’ (1928).

Partindo basicamente dos diários de Virginia, das cartas trocadas entre familiares e amigos, e da autobiografia de seu marido Leonard Woolf, Marder traça o percurso e detalha o cotidiano de Virginia. Apesar de se propor descrever seus últimos anos antes do suicídio em 1941, o biógrafo retoma alguns momentos da  infância e juventude de Virginia – seja através das lembranças escritas em seu diário, seja através da análise de seus personagens. Os livros ‘Ao farol’ (1920), ‘As ondas’ (1931) e ‘Os anos’ (1937) são tomados como referências para se compreender tanto as relações familiares e de amizade do passado, quanto o mundo interno de Woolf.

Fatos que causaram forte impacto em sua constituição psíquica são relatados por Marder, como a morte de sua mãe na infância e a vida sob a instabilidade e os desmandos de seu pai, o abuso sexual sofrido por ela e sua irmã por parte de seu meio-irmão e a morte de seu irmão na juventude. Nesse sentido, Marder é brilhante. Além de descrever e demonstrar essas aproximações, ele faz excelentes resenhas dos livros de Virginia.

Mas fica por aí. Em vários trechos da biografia, a leitura ficou cansativa e pesada. Em alguns segmentos, Marder se prende a descrever o cotidiano do casal Woolf e a rotina de Virginia, o que fez a leitura empacar em diversos momentos. Isso, claro, não retirou o prazer de tentar compreender a trajetória dessa brilhante escritora. Entretanto, questões que se fariam fundamentais para compreender o mundo interno virginiano e como a progressão de sua melancolia culminou em seu suicídio não recebem um tratamento apropriado. Os dois últimos capítulos, por exemplo, têm passagens extremamente rápidas, como se autor não quisesse se comprometer e se aprofundar em uma análise sobre como o mundo de Virginia foi se implodindo.

O isolamento do mundo, a pouca abrangência de seus livros, a perda da segurança e avanço do fascismo, a proposta de suicídio feita por Leonard caso Hitler invadisse a Alemanha, e as cartas e documentos antigos de seu pai são eventos cruciais para compreender o descentramento e perda de entorno de Virginia. No seu diário, em 1940, ela escreve: “E no momento, com apenas [Entre os atos] para me fixar, eu estou mal ancorada. Além disso, a guerra – nossa espera enquanto as facas se afiam para a operação – acabou com a parede externa de segurança. Não há eco que volte. Eu não tenho entorno. […] Nós chegamos à beira de um precipício… & daí?” (p. 454). O leitor percebe, a partir do relato de Marder, que Virginia está em sofrimento psíquico, mas não consegue compreender a sua profundidade que culminou em sua morte.

Outro ponto que deixa a desejar é a falta de referência e análise mais aprofundada de sua amizade e romance com Vita Sackville-West. Afora um único e apressado comentário no prelúdio do livro, Marder retrata Vita como se fosse mais uma das várias amigas com quem Virginia trocava cartas e recebia em Monk’s House. Por outro lado, fica muito clara a dedicação de Leonard à Virginia que se colocou como suporte e ancoramento para que ela conseguisse permanecer em ‘seu centro’ após a grave crise melancólica seguida de uma tentativa de suicídio no início dos anos 1900. Essa ideia de ‘centro’ é retomada por Virginia em seu diário em meados de 1940, quase um ano antes de sua morte.

De forma geral, apesar das limitações destacadas, o livro propicia uma boa leitura visto que retrata uma gama de certos fatos, históricos e da vida pessoal de Virginia, que ajudam a compreender um pouco melhor o mundo interno de Virginia.

Percebemos em Woolf uma mulher emocionalmente instável, em luta constante contra os fantasmas de seu mundo interno e a melancolia. Mas também notamos uma mulher alegre, que apreciava as amizades e a vida simples em Monk’s House.

Virginia foi uma escritora que testou constantemente seus limites na escrita e, a seu modo, se engajou em questões sociais e políticas. Alguns de seus livros, biografias e ensaios retratam questões extremamente relevantes e atuais, como a sexualidade em suas diversas formas de expressão (‘Orlando’ de 1928, retrata um personagem que se transforma em mulher), o feminismo e a luta das mulheres contra o patriarcado (‘Um teto todo seu’ de 1929), e o fascismo (‘Três guinéus’ de 1938).

Enfim, uma frase de Virginia que bem traduz sua trajetória é destacada tanto por Kehl quanto por Marder: “Se eu não sofresse tanto, não poderia ser feliz”. De fato, seu sofrimento e luta interna para tentar se manter conectada à realidade foram as molas para sua produção literária, e a escrita era o que a deixava feliz.

Marder, H. (2011). Virginia Woolf – A medida da vida. (L. Fróes, Trad.). São Paulo: Cosac Naify.

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