Cora e os becos de Goiás

Cora e os becos de Goiás[i]
por Priscilla Lima

Nos Poemas dos becos de Goiás, publicados em 1965, Coralina elege como tema personagens e paisagens totalmente esquecidas e silenciadas pela vida urbana. Os becos e seus objetos comuns são poetizados:

Espólio da economia da cidade.
Badulaques:
Sapatos velhos. Velhas bacias.
Velhos potes, panelas, balaios, gamelas,
E outras furadas serventias
Vêm dar ali (Coralina, 1965/1983, p. 96).

As estórias dos becos não noticiadas nos “autos oficiais do passado” são a base dos enredos versados por Coralina. Ao mesmo tempo que esses poemas denunciam o conservadorismo de uma sociedade patriarcal, dão voz ao excluído.

O olhar poético sobre o que é descartado pela sociedade moderna faz com que os escritos coralineanos se inscrevam na tradição poética moderna e modernista juntamente com Bandeira e Baudelaire. Além de permanecerem atuais.

A identificação de Cora com esses personagens é evidenciada em alguns versos, como em Becos de Goiás (1965/1983, pp. 103-106):

Conto a estória dos becos,
dos becos da minha terra,
suspeitos… mal afamados
onde família de conceito não passava.
“Lugar de gentinha” – diziam, virando a cara.
De gente do pote d’água.
De gente de pé no chão.
Becos de mulher perdida.
Becos de mulheres da vida.
Renegadas, confinadas
na sombra triste do beco.
[…]
Mulher-dama. Mulheres da vida,
perdidas,
começavam em boas casas, depois,
baixavam pra o beco.
Queriam alegria. Faziam bailaricos.

O beco, excluído e escondido, lugar pouco visitado pelas famílias tradicionais, lugar em que cada um segue sua própria sina, pode ser tomado como metáfora da trajetória de Cora. Não apenas o beco, mas também a mulher que ali faz sua vida – mulher que não se encaixa no padrão identitário socialmente aceito e que sofre rejeição.

Essa identificação com o comum, com o banal e com o excluído também pode ser percebido em outros poemas. Em Poema do milho (1965/1983, pp.165-172), percebemos, além de seus significados étnicos, sociais e históricos, o milho como metáfora de si mesma e de sua poiesis:

Milho plantado; dormindo no chão, aconchegados
seis grãos na cova.
Quatro na regra, dois de quebra.
Vida inerte que a terra vai multiplicar.
Evém perseguição:
o bichinho anônimo que espia, pressente.
A formiga-cortadeira – quenquém.
A ratinha do chão, exploradeira.
A rosca vigilante na rodilha.
O passo-preto vagabundo, galhofeiro,
vaiando, sirrindo…
aos gritos arrancando, mal aponta.
O cupim clandestino
roendo, minando,
só de ruindade.
E o milho realiza o milagre genético de nascer.
Germina. Vence os inimigos.
Aponta aos milhares.
– Seis grãos na cova.
– Quatro na regra, dois de quebra.
Um canudinho enrolado.
Amarelo-pálido,
frágil, dourado, se levanta.
Cria substância.
Passa a verde.
Liberta-se. Enraíza.
Abre folhas espaldeiradas.
Encorpa. Encana. Disciplina,
com os poderes de Deus.

Na metáfora do milho, vemos a ação do tempo e a força do milho que se transforma. Assim como o milho – “canudinho enrolado, amarelo-pálido e frágil” que se levanta, Cora se descreve como menina “amarela, de pernas moles […] E a moleirona, pandorga, perna-mole/ se levantava com seu próprio esforço”, em Minha infância (freudiana) (1965/1983, pp.174-175):

Eu era triste, nervosa e feia.
Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam – diziam:
“– Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente”.
Tinha medo das estórias
que ouvia, então, contar:
assombração, lobisomem, mula-sem-cabeça.
Almas penadas do outro mundo e do capeta.
Tinha as pernas moles
e os joelhos sempre machucados,
feridos, esfolados.
De tanto que caía.
Caía à toa.
Caía nos degraus.
Caía no lajedo do terreiro.
Chorava, importunava.
De dentro a casa comandava:
“– Levanta, moleirona”.
Minhas pernas moles desajudavam.
Gritava, gemia.
De dentro a casa respondia:
“– Levanta, pandorga”.
Caía à toa…
nos degraus da escada,
no lajeado do terreiro.
Chorava. Chamava. Reclamava.
De dentro a casa se impacientava:
“– Levanta, perna-mole…”
E a moleirona, pandorga, perna-mole
se levantava com seu próprio esforço

Ambos os poemas retratam as dificuldades enfrentadas pelo milho/Ana para se libertar da terra/família que lhe prendia. Minha infância é um poema melancólico, no qual irrompem diversas recordações de maus-tratos, solidão e isolamento.

Os significantes por meio dos quais a voz do outro (seus antepassados) identifica e qualifica Ana aparecem com especial relevo: moleirona, pandorga, perna-mole, inzoneira, abobada, idiota, amarela. São significantes que retratam a dificuldade em se adequar ao modo de existir de uma casa, em que o dia começava ao raiar do sol e era dominado pelas mulheres e seus movimentados afazeres.

Andar de forma desembaraçada e segura era metáfora para o papel da mulher e seu destino social naquela sociedade, segundo o qual a mulher deveria caminhar rumo ao casamento e à vida doméstica. Ainda tão atual. Essa não era a caminhada desejada por Ana. Frustrando as profecias maternas e o destino social imposto às mulheres, se torna mulher que caminha rumo à conquista de seu próprio desejo.

O ressurgimento de lembranças e sua transformação em poesia revela essa capacidade poietica de se fazer e refazer. A poiesis do eu[ii], enquanto (re)criação de si através da escrita, aponta para uma forma de amenizar o mal-estar desencadeado pelo desamparo existencial. Reescrever o passado pode criar condições para a reescrita da própria subjetividade no presente e para a busca de uma forma de unidade da própria identidade. Ante a fragmentação gerada pela modernidade, o ato autobiográfico aponta para o passado, mas também para o futuro. A historicidade parece ser reestabelecida.

Referências bibliográficas

Coralina, C. (1983). Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. (4a ed.) São Paulo, SP: Global. (Obra original publicada em 1965).

Lima, P., Lima, S. & Viana, T. (2016). Nos tempos dos becos de Goiás… Poiesis, temporalidade e velhice em Cora Coralina. Revista Kairós Gerontologia, 19(2), 201-226.

[i] Este post é parte integrante de um artigo publicado com o título “Nos tempos dos becos de Goiás… Poiesis, temporalidade e velhice em Cora Coralina”, em co-autoria com Sostenes Lima (www.sosteneslima.com) e Terezinha de Camargo Viana, na revista Kairós Gerontologia, vol. 19, n. 2, em 2016.

Para ler o artigo completo acesse: https://revistas.pucsp.br/index.php/kairos/article/view/31442/21921

[ii] Essa ideia é desenvolvida também no post “Poiesis de si”.

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