Ainda não…

por Priscilla Lima

Em fins de maio desse ano, participei de uma banca de defesa de tese de doutorado que tratava da questão da ambivalência em alguns contos de Guimarães Rosa. A leitura e análise da tese me remeteu a algumas questões que compartilho aqui.

Estudar questões essencialmente humanas a partir da literatura não é trabalho fácil, pois podemos sempre cair na ‘psicanálise selvagem’ d o escritor. Entretanto, os poetas, ou escritores criativos para usar o termo de Freud, conseguem revelar questões da alma humana que dificilmente teríamos acesso direto por outras vias. Freud afirma que o poeta tem acesso a fontes desconhecidas pela psicanálise: “Os escritores criativos são aliados valiosos e seu testemunho deve ser altamente considerado, pois sabem numerosas coisas do céu e da terra, com as quais nem sonha a nossa filosofia. No conhecimento da alma eles se acham muito à frente de nós, homens cotidianos, pois recorrem a fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência” (Freud, 1907/2015, p. 16)[1].

O processo de escrita criativa muito se assemelha ao processo analítico. Ambos, “o poeta e o psicanalista se ocupam de tornar o indizível, dizível em sua indizibilidade. O poeta, assim como o analista, é um artesão da palavra”, nos afirma Oliveira (2002, p. 32-33)[2]. Ambos, o analista e “o poeta tenta[m] dar conta da fragilidade, do desamparo, do desconhecido, da condição humana por meio da palavra” (p. 32). Mais do que ilustrar a ambivalência na constituição psíquica do ser humano, podemos pensar que o poeta também nos ensina sobre isso. E, acerca da ambivalência, Rosa parece ser um mestre primoroso.

A ambivalência permanece como constituinte do psiquismo. Desde muito cedo convivemos com o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, vivenciados ao mesmo tempo. Quem nunca chorou e sentiu profunda angústia ao comemorar um aniversário e constatar a passagem do tempo? Quem nunca experimentou ‘amoródio’ pelos pais ou pelo companheiro/companheira? Para além dessas situações que conseguimos recordar, a ambivalência se dá no inconsciente. Freud, ao construir sua obra, deixa claro que nosso Inconsciente convive permanentemente com os opostos; a ambivalência é uma de suas características primordiais.

Édipo (vivido por volta dos 5 anos) e, posteriormente, a adolescência parecem ser as duas etapas do desenvolvimento em que a ambivalência é mais fortemente experimentada. Tanto uma quanto a outra, são fundadas e movidas pela ambivalência. A identificação com as figuras parentais é ambivalente. No conto “Os cimos”[3], ao contar a estória de um menino afastado de sua mãe, vemos uma situação em que o Menino se encontra imerso em uma angústia e tomado pela ambivalência.

Rosa constrói esse conto de tal forma que nos identificamos com o Menino. Penso que esse conto retrata a ambivalência de forma a nos levar à identificação com o personagem mais do que os outros contos rosaneanos. Além de retratar a angústia do desamparo e o medo da perda da mãe, Rosa retrata a ambivalência e a angústia presentes quando da passagem da infância para a adolescência. A passagem do tempo experimentada pelo adolescente se aproxima da viagem do Menino no jipe acompanhado pelo Tio: “O Menino, em cada instante, era como se fosse só uma certa parte dele mesmo, empurrado para diante, sem querer. O jeep corria por estradas de não parar, sempre novas” (Rosa, 1962/2005, p. 206).

A entrada na adolescência vai demandar uma separação quase que definitiva da Mãe. Rosa ressalta a partir do Menino: “Ainda que a gente quisesse, nada podia parar, nem voltar para trás, para o que a gente já sabia, e de que gostava. (…). Quase que assistir às certezas lembradas por um outro; era que nem uma espécie de cinema de desconhecidos pensamentos; feito ele estivesse podendo copiar no espírito ideias de gente muito grande” (Rosa, 1962/2005, p. 203). O Menino/adolescente se depara com a angústia infanda e o amor inefável. Ambos os afetos são indizíveis. Tanto o amor – inefável e por sua característica inebriante é indescritível – quanto a angústia – infanda e indizível, algo sobre a qual não se pode, não se deve e não se consegue falar. Não há palavras que consigam dar contorno à angústia da ambivalência, pois ela nos remete ao desamparo, como ressaltou Freud.

Então o que fazer? Se estamos inevitavelmente imersos na ambivalência e no desamparo, se a ambivalência nos remete à angústia, ao desamparo, ao estranhamento, como sobreviver e alcançar a felicidade nem que seja em “horinhas de descuido”, como afirmou Rosa (1967/2001), em Tutaméia[4]?

Freud nos dá algumas possíveis vias no seu texto “O mal-estar na civilização”[5]. Destaco duas: a arte e a ciência. Tanto uma como outra podem ser objetos de contemplação e catarse, e também formas de transformar parte da angústia em produto cultural. Ambas fornecem possibilidades de elaboração psíquica da ambivalência, seja pela sua produção ou pelo seu consumo. Mas não o consumo enquanto fetiche capitalista, como ocorre quando faço um selfie diante de um quadro ou despejo conhecimento superficial acerca de determinada obra nas redes sociais. Consumo no sentido de incorporação, de identificação, de encontrar vias catárticas e também elaborativas para a angústia. Quando leio “O duplo” de Dostoiévsky[6], ou “O espelho” de Machado de Assis[7], ou “O espelho” de Guimarães Rosa[8], me deparo com questões que me tocam e também denunciam a época em que vivo. Assim, ao retratarem a angústia e ambivalência do personagem diante do si mesmo espelhado, tocam questões constituintes de nosso próprio Eu. A elaboração da angústia nunca é total, mas alguns contornos são sempre possíveis…

No final do conto “Os cimos”, ao descrever o retorno do Menino para casa, Rosa belamente retrata que a vida é um constante devir: “– ‘Chegamos, afinal’ – o Tio falou. – ‘Ah, não. Ainda, não…’ – respondeu o Menino. Sorria fechado: sorrisos e enigmas, seus. E vinha a vida.” (Rosa, 2005, p. 209).

[1] Freud, S. (2015). O delírio e os sonhos na Gradiva de W. Jansen. Em Obras completas (vol. 8, pp. 13-121). (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das letras. (Trabalho original publicado em 1907).
[2] Oliveira, F. (2002). Uma interface entre psicanálise, sonhos e poesia brasileira. Pulsional – revista de psicanálise, XV(161), 32-39).
[3] Rosa, J. G. (2005). Os cimos. Em Primeiras estórias. (pp. 201-209). Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Trabalho original publicado em 1962).
[4] Rosa, J. G. (2001). Tutaméia – Terceiras Estórias. 8 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Trabalho original publicada em 1967).
[5] Freud, S. (2010). O mal-estar na civilização. Em Obras completas (vol. 18, pp. 13-122). (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das letras. (Trabalho original publicado em 1930).
[6] Dostoiévsky, F. (2013). O duplo. 2 ed. São Paulo: Editora 34. (Trabalho original publicado em 1846).
[7] Assis, M. (1994). O espelho – esboço de uma nova teoria da alma humana. Em Papéis avulsos. Obra completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. (Trabalho original publicado em 1882). Disponível em: http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/contos/macn003.pdf
[8] Rosa, J. G. (2005). O espelho. Em Primeiras estórias. (pp. 113-120). Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Trabalho original publicado em 1962).

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