Duplo angustiante de mim

por Priscilla Lima

A questão do duplo, tão trabalhada na literatura universal, é fator fundante na nossa subjetividade. Moreno, psiquiatra e fundador do Psicodrama, afirma que já no começo da vida precisamos de um ‘ego auxiliar’ – uma espécie de ego duplicado do bebê – para que nos desenvolvamos e nos tornamos de fato ‘humanos’ (Moreno, 1946/2002).

Esse ‘ego auxiliar’ seria aquele outro ser que fala pelo pequeno bebê, expressa seus desejos e supre suas demandas. Quem nunca vivenciou ou presenciou uma mãe conversando com seu bebê e respondendo por ele como se de fato fosse o bebê?

Após esse início de vida, a duplicidade é vivida de forma quase real quando o bebê se depara com seu outro ‘eu’ na imagem especular. Em um primeiro momento, não se reconhece e lida com esse outro ‘eu’ como se fosse de fato outra pessoa. Ao nos reconhecermos no ‘eu’ refletido, em meio a um misto de alegria e espanto, adentramos no mundo da duplicidade de nós mesmos – ‘sou eu essa imagem?’; ‘essa imagem sou eu?’; ‘quando eu sou você, e você sou eu?’. Freud, ao descrever a psicodinâmica do desenvolvimento do Eu, ressalta a função de duplo do Super-Eu – esse outro dentro de mim que diz como devo ser e como devo não ser (Freud, 1914/2010b; 1923/2011).

Para além dessas questões topológicas e dinâmicas do psiquismo, a duplicidade de si mesmo pode ser analisada também a partir de uma análise mais sociológica. Hall (1992) fala da fragmentação da identidade que se instaura a partir da Modernidade. Essa fragmentação impõe que experimentemos e usemos diversas e contraditórias formas de expressar quem somos.

O nascimento do indivíduo, consequência da Modernidade, não é de fato o nascimento de um sujeito uno – por mais que essa unicidade tenha sido nossa busca desde então. Expurgar o mal que em nós habita de forma que sejamos apenas bem. Vencer a carne para que apenas o espírito sobreviva. Controlar as emoções até que de fato a razão predomine. Conceitos morais tão propagados a partir do Iluminismo, mas que sempre se revelaram infrutíferos e frágeis diante da complexidade de nossas cisões – sociais e principalmente psíquicas.

Dostoiévski trabalha essa questão da duplicidade em quase toda a sua obra. Paulo Bezerra, tradutor de Dostoiévski do russo para o português, ressalta que o duplo está presente em suas grandes obras: “Crime e castigo (Raskolnikov/Svidrigáilov), O idiota (Nastácia Filíppovna/Rogójin), Os demônios (Stavróguin/Chátov/Kiríllov/Piotr), O adolescente (Viersílov/Akhmákova) e Os irmãos Karamázov (Ivan/Aliocha, Ivan/Smierdiakóv, Ivan/Diabo)” (Bezerra, 2013, p. 237). Em específico, na novela O duplo, esse tema é o predominante. Construído de forma a não se resolver, o leitor embarca em uma busca por encontrar a explicação por detrás da aparição do senhor Golyádkin segundo. O que nunca acontece.

A experiência do leitor é de uma constante angústia (pelo menos no meu caso), já que o imbróglio da duplicidade nunca chega ao fim. Essa angústia é alimentada pela difícil compreensão do mundo interno do senhor Golyádkin primeiro e sua constante ambivalência. Uma ligação quase óbvia – ambivalência-angústia-cisão-duplicidade-angústia – que se retroalimenta. Essa angústia é quase que palpável nas descrições de Dostoiévski tanto do estado de sofrimento de Golyádkin primeiro e das situações provocadas por seu duplo, quanto do ambiente quase sempre noturno, com neblina, chuva, neve e frio.

Essas descrições muito se aproximam da Londres descrita por Stevenson (1886/2014), em O Médico e o Monstro, e também do que Freud (1919/2010c) descreveu como sendo as sensações provocadas pela emergência do ‘inquietante’ ou estranho familiar. Em Stevenson, o duplo emerge como um Id em estado puro, com suas paixões à flor da pele e em busca de satisfação, mas que ao mesmo tempo produz repugnância.

A emergência desse outro, que me é estranho e ao mesmo tempo familiar, denuncia nossa cisão interna, tão bem descrita por Freud quando lemos sobre os dois princípios do funcionamento psíquico – o princípio de prazer e o princípio de realidade (1911/2010a) e em tantos outros de seus trabalhos. Em O Duplo, Golyádkin segundo conquista e usufrui de todos os prazeres desejados por Golyádkin primeiro, enquanto este continua a viver preso à realidade de sua condição social e inibições psíquicas (principalmente retratada na sua dificuldade em se expressar e se comunicar, e de compreender as intenções das pessoas à sua volta). A duplicidade acaba por conduzir Golyádkin à loucura.

O que tem de tão instigante em O Duplo? Retrata de forma belamente angustiante nossa realidade interna – quem sou eu? Sou o que desejo ser? Perguntas que nunca saberemos ao certo suas respostas.

 

Referências bibliográficas
Bezerra, P. (2013). O laboratório do gênio. Em, Dostoievsky, F. (2013). O Duplo. 2ed. (pp. 237-248). (P. Bezerra, Trad.). São Paulo: Editora 34.
Dostoiévsky, F. (2013). O Duplo. 2ed. (P. Bezerra, Trad.). São Paulo: Editora 34. (Trabalho originalmente publicado em 1846).
Freud, S. (2010a). Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico. Em, Obras completas (vol. 10, pp. 108-121). (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho originalmente publicado em 1911).
Freud, S. (2010b). Introdução ao narcisismo. Em, Obras completas (vol. 12, pp. 13-50). (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho originalmente publicado em 1914).
Freud, S. (2010c). O inquietante. Em, Obras completas (vol. 14, pp. 328-376). (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho originalmente publicado em 1919).
Freud, S. (2011). O Eu e o Id. Em, Obras completas (vol. 16, pp. 13-74). (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho originalmente publicado em 1923).
Hall, S. (1992). A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora.
Moreno, J. (2002). Psicodrama. 8ed. (A. Cabral, Trad.). São Paulo: Cultrix. (Trabalho originalmente publicado em 1946).
Stevenson, R. (2014). O médico e o monstro. 2ed. (A. Lisboa, Trad.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Trabalho originalmente publicado em 1886).

4 comentários em “Duplo angustiante de mim

  1. Legal este artigo sobre o duplo. Amplia o nosso estudo sobre a obra de Dostoiévski. Gostei também daquela citação do Freud, no artigo “Ainda não…”: “Os escritores criativos são aliados valiosos e seu testemunho deve ser altamente considerado, pois sabem numerosas coisas do céu e da terra, com as quais nem sonha a nossa filosofia. No conhecimento da alma eles se acham muito à frente de nós, homens cotidianos, pois recorrem a fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência” (Freud, 1907/2015, p. 16)

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  2. Obrigada professora Priscila por compartilhar seus conhecimentos e reflexões tão importantes para que alcancemos o autoconhecimento, única saída para lidarmos com as angústias e as intrigas desta existência!

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