Morte, vida e morangos à beira do abismo

Em julho de 2014, morria Rubem Alves, educador e escritor mineiro. Nascido em 1933, em Dores da Boa Esperança, sul de Minas Gerais, Rubem Alves se consolidou como crítico e teorizador da educação, escritor de fábulas infantis, e cronista com vasta produtividade, principalmente após os 60 anos de idade. Além disso, sua habilidade em poetizar suas lembranças, boas e ruins, seu envelhecimento e a si mesmo sempre me faz refletir acerca da brevidade e densidade da vida. Temas como a infância, as crises experimentadas durante a vida, o corpo que envelhece, o tempo que passa e as lembranças estão constantemente presentes nas crônicas autobiográficas desse escritor. Suas elaborações e reelaborações psíquicas são poeticamente evidenciadas em seus escritos e traduzem a poiesis de si sobre a qual escrevi em outro post.

Dentre seus escritos da velhice, tem um que particularmente me toca e que compartilho logo abaixo. É um texto que traz algumas elaborações de Alves após o diagnóstico de câncer aos 73 anos. Apesar de ser um texto longo, vale cada palavra.

CÂNCER
por Rubem Alves

Ele era um homem com uma vasta cabeleira grisalha, olhos mansos e voz baixa e pausada. Acabara de completar 73 anos e já se notava um discreto ar de cansaço no seu semblante. Assentado no seu escritório, tinha nas mãos um livro de poemas de Fenando Pessoa que ele considerava o maior poeta jamais nascido. Sobre a mesa um cachimbo, amor antigo, tranquilizante e perfumado. Fazia muitos anos que ele não era aceso. Ele o guardava porque ainda tinha saudades … Ouvia um CD de músicas barrocas que, segundo explicava, lhe traziam tranquilidade de espírito. “Música barroca põe ordem nas confusões da minha alma”, ele dizia sorrindo. Era uma cena de paz.

A porta se abriu devagarinho, sem fazer barulho, e sua neta de 10 anos entrou. Entrou de um jeito diferente. No seu normal, ela era efusiva, barulhenta e risonha. Dessa vez ela entrou com cuidado, sem fazer barulho. Havia uma razão para isso. É que ela tinha uma pergunta grave para fazer.

“Vô, das conversas que os grandes estão cochichando pela casa, ouvi que você vai morrer. É verdade? Você vai morrer?”

Ele sorriu ao ouvir a pergunta da menina. Ela confirmava uma coisa que ele já sabia, fazia muito tempo: as crianças falam sobre a morte com naturalidade. Não são como os adultos que não sabem o que fazer com a palavra e procuram sempre não dizê-la. Lembrou-se da lição que tivera 30 anos antes. Era manhã ainda muito cedo. Estava na cama dormindo. De repente, foi acordado por sua filha de três anos … A cena estava nítida na sua memória. Ela viera do seu quarto, estava vestida com uma camisolinha azul e seus pés estavam descalços. Ele se espantou. Isso nunca acontecera. Foi quando ela lhe perguntou: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. A pergunta de sua filha de três anos o deixou mudo. Ela nunca lhe tinha sido feita com tanta franqueza. Ele não estava preparado para ela, não sabia o que dizer. A menina então arrematou: “Não chore porque eu vou abraçar você …”. Com seus três anos, ela sabia muito sobre a morte. Sabia que morte tinha a ver com separação, com saudade e com tristeza. Onde aprendera? Que mais é preciso saber?

E agora era sua neta de 10 anos que lhe perguntava sem nenhum rodeio: “Você vai morrer?”. Se houvesse um outro adulto no escritório é possível que ele a repreendesse porque essa é uma pergunta que não se faz. “Quem foi que colocou essa ideia doida na sua cabeça? Seu avô não vai morrer. Ele está muito bem …”

Mas a verdade era que ele não estava nada bem. Dois dias antes recebera o resultado da biópsia. O tumor era maligno. Ele estava com câncer. Ele sorriu para a neta, levantou-se da poltrona onde estava, chamou-a para assentar-se ao seu lado no sofá e segurou sua mão carinhosamente.

O CD de música barroca acabara de tocar a “Ária para a 4ª corda” de Bach e depois de três segundos de silêncio ouviu-se o som do órgão que tocava um coral também de Bach, “Todos os homens devem morrer”. O avô pensou: “Que estranha coincidência … A Beleza transfigurando o Terrível…”.

Iniciou-se, então, uma longa conversa entre o avô e a neta sobre o Grande Mistério.

“Minha neta”, ele começou. “Eu vou morrer. Todos os homens devem morrer. Todo mundo sabe disso. A única dúvida é sobre o ‘quando’. Mas os grandes não querem e não sabem falar sobre a morte porque todos têm medo dela. Esses todos que devem morrer – eu, sua avó, seu pai, sua mãe, você, seus irmãos – se dividem em dois grupos. Primeiro é o grupo daqueles que vão morrer mas vivem como se fossem viver para sempre. Esses são os tolos. O outro é o grupo daqueles que vão morrer, sabem que vão morrer e, por isso mesmo, cuidam do tempo de vida que lhes resta. Esses ficam sábios. Eu recebi o aviso e sei que o meu tempo de vida não será muito longo. O aviso veio num exame de laboratório que me disse que estou com câncer. Todo mundo tem medo dessa palavra porque ao ouvi-la todos pensam na morte. Assim, vou morrer. O que não quer dizer que muitos que não receberam o aviso não venham a morrer antes de mim. A morte é traiçoeira”.

O avô fez silêncio. Pegou o cachimbo que estava sobre a mesa e colocou-o na boca, vazio como estava. Sorriu pensando que ele parara de fumar muitos anos antes precisamente por medo de câncer. Pensou que a morte é matreira, pega no lugar onde não esperamos. Aspirou o ar do cachimbo vazio como se estivesse fumando e brincou com o pensamento de que agora, talvez, não fizesse mais diferença não fumar para evitar o câncer… Poderia voltar ao seu velho amigo. Talvez a fumaça e o perfume o levassem para um passado de saúde e o consolassem… Mas foi só um pensamento e ele colocou o cachimbo de novo no lugar onde estava…

Lembrou-se do poema de Alberto Caeiro, aquele em que o Jesus Menino fugiu do céu e veio para a terra escorregando num raio de Sol. Lembrou-se da seriedade das conversas entre o poeta e o Deus criança. E ali estava ele conversando seriamente com uma criança sobre uma coisa que dava medo. Mas era mais fácil conversar com sua neta que com os adultos.

“Sabe de uma coisa, minha neta?”, ele continuou. “Todos aqui em casa me amam. Eles sofrem por saber que estou com câncer. E eles tentam me consolar contando-me umas mentiras bondosas do tipo ‘tudo vai ficar bem’, ‘há recursos médicos muito avançados’… O que eles querem é que eu e eles não soframos pelo pensamento da morte, que façamos de conta que nada vai acontecer. Mas eu não quero palavras de consolo. Eu gostaria mesmo é que eles viessem até mim como você veio com a sua pergunta franca, e conversássemos sobre a vida que me resta – e a vida que resta para eles também … Você foi a única … E assim você ficou muito mais perto de mim…”

“Mas vó”, disse a menina, “qual é a vantagem de conversar sobre a morte?”.

“Há muitos anos, li sobre a sabedoria de um feiticeiro índio que viveu perto da fronteira dos Estados Unidos com o México. O nome dele era D. Juan. As coisas que ele disse sobre a morte abriram os meus olhos. Comecei a vê-la de um outro jeito…”

O avô se levantou, foi até uma estante cheia de livros e de lá tirou um que tinha como título Viagem a Ixtlan. O autor era um antropólogo chamado Carlos Castañeda. O livro estava cheio de marcas vermelhas, os lugares que mais o haviam impressionado.

“Era uma conversa entre o feiticeiro e o antropólogo. Vou ler o que o feiticeiro disse sobre a morte”. E então, com voz pausada, ele leu:

A morte é nossa eterna companheira. Está sempre à nossa esquerda, à distância de um braço. (…) O que se deve fazer quando se é impaciente é virar-se para a esquerda e pedir conselhos a sua morte. Você perderá uma quantidade enorme de mesquinhez se sua morte lhe fizer um gesto, ou se a vir de relance, ou se, ao menos, tiver a sensação de que sua companheira está ali, vigiando-o. (…) A morte é a única conselheira sábia que possuímos. Toda vez que sentir, como sente sempre, que está tudo errado e você está prestes a ser aniquilado, vire-se para sua morte e pergunte se é verdade. Ela lhe dirá que você está errado; que nada importa realmente, além do toque dela. Sua morte lhe dirá: “Ainda não o toquei.”.

“Vô”, disse a menina. “O feiticeiro disse que a morte fala. Mas eu nunca soube que a morte falasse …”

“Fala sim. Fala sem usar palavras. E o interessante é que a morte nunca fala sobre ela mesma. Ela só fala sobre a vida. Basta pensar nela para que a gente ouça a sua voz silenciosa nos perguntando: ‘E a sua vida, como vai? O que é que você está fazendo com o tempo que lhe resta?’. Quem ouve essa pergunta está a caminho de tornar-se sábio. Por isso D. Juan disse que a morte é a única conselheira sábia que temos”.

“E vô, o que é ser sábio?”, perguntou a menina.

“Ser sábio é saber aquilo que é essencial para uma vida, se não feliz (ser feliz por inteiro é coisa muito rara!), pelo menos aberta à alegria, quando ela nos pega em deliciosos momentos de distração. Ser sábio é saber a arte de garimpar a alegria. O diamante vem misturado com muita areia. O sábio olha, vê o diamante brilhando, pega o diamante e despreza a areia. O tolo pega toda a areia. É isso que D.Juan tinha em mente quando disse que, diante da morte, ‘uma imensa quantidade de mesquinhez desaparece’. A morte nos faz ver que gastamos muito tempo com lixo e, com isso, estragamos a vida”.

“E eu?”, continuou o avô, “o que é que a morte está me dizendo? Ela está me dizendo: ‘Ainda não o toquei!’”.

“Ela está me dizendo: ‘Você está vivo!’. Se estou vivo, a minha vida está me oferecendo muitas alegrias. As alegrias que ela me oferece são as mesmas alegrias que ela oferece a todos os outros que ainda não receberam o aviso e fazem de conta que não vão morrer. Por isso, porque eles não têm consciência de que o tempo passa rápido, eles não prestam atenção nas alegrias que a vida lhes oferece. Friedrich Nietzsche, um dos homens mais sábios que existiram, disse que ‘a certeza da morte poderia adoçar cada vida com uma gota perfumada de leveza’”

“Quando os homens fazem de conta que vão viver para sempre, eles não prestam atenção nas bolhas de sabão que fazem a vida. Pois a vida não é feita de bolhas de sabão? Tudo é efêmero e frágil como as bolhas de sabão … Mas elas são lindas, leves, transparentes, fazem adultos e crianças rirem, enchem o ar de alegria … Eu quero fazer muitas bolhas de sabão!”

“Vou lhe contar uma estória que já contei muitas vezes. É assim:

Um homem caminhava por uma floresta. Estava escuro, porque a noite se aproximava. De repente ele ouviu um rugido terrível. Era um leão. Ele ficou com muito medo e começou a correr. Mas ele não viu o caminho por onde ia, porque estava escuro, e caiu num precipício. No desespero da queda, ele se agarrou ao galho de uma árvore que se projetava sobre o abismo. Lá em cima, na beirada do abismo, o leão. Lá em baixo, no fundo do abismo, as pedras. E foi então que, olhando para a parede do abismo, ele viu que ali crescia uma planta verde que tinha um fruto vermelho: era um morango. Ele então estendeu seu braço, colheu o morango e o comeu. Estava delicioso.

Terminou a estória…  As pessoas, ao ouvi-la, me perguntam: ‘Mas, e o homem? Ele caiu ou não caiu?’. Eu respondo: Quem está dependurado é você, sou eu. Mais cedo ou mais tarde cairemos. Mas é melhor cair com a barriga cheia de morangos que com a barriga vazia …”

“A vida é assim. Sei que estou pendurado sobre o abismo. Mas há muitos morangos a serem comidos… Eu comerei todos os morangos que puder, antes de cair…”

“Os morangos não são os mesmos para todas as pessoas. É a morte que nos obriga a escolher os morangos que queremos comer”.

“Vô, me conta alguns dos seus morangos”, pediu a neta. O avô então começou:

“Conversar sobre a vida e a morte com uns poucos amigos, do jeito como estou conversando com você”.

“Escrever. Escrever é uma brincadeira que faço com as palavras e se parece com a montagem de um puzzle. A primeira alegria está na ideia, quando ela aparece sem que eu saiba de onde. A segunda alegria está em juntar as ideias para que elas formem um mosaico. A terceira alegria acontece quando o mosaico fica pronto. É a hora de compartilhá-lo com os amigos”.

“Ler. Ao ler eu saio do meu mundo – e mesmo da minha doença – e entro em mundos fantásticos que me causam espanto, admiração, medo, aflição, emoção e mesmo amor. Lendo eu vivo outras vidas diferentes da minha”.

“Diariamente quero tomar banho de chuveiro com a atenção totalmente voltada para o prazer da água morna escorrendo sobre o meu corpo”.

“Cuidar de um jardim. Ele ficará como uma dádiva às pessoas que amo. Se eu tiver espaço, quero plantar uma ou muitas árvores. Serão árvores sob cuja sombra eu nunca me assentarei. Um sábio judeu chamado Martin Buber escreveu que o homem que primeiro plantou uma árvore à cuja sombra nunca se assentaria, esse foi o primeiro homem a esperar o Messias. Plantando uma árvore eu anuncio a minha esperança quanto ao futuro da nossa terra”.

“Ouvir minhas músicas preferidas. Outros escolherão músicas diferentes das minhas. Mas não importa. Quem melhor fala sobre a música é o meu amigo Artur da Távola. Ele diz: ‘Música é vida interior. E quem tem vida interior nunca está sozinho!’”.

“Quero organizar um álbum com as fotos dos momentos felizes que tive para que eles se repitam sempre na minha lembrança …”

“Quero comer as comidas de Minas, frango com quiabo, polenta e pimenta, biscoito de polvilho com café com leite, quero chupar manga, mexerica, jabuticaba e banana-prata bem madura com leite gelado…”

“E quero poder continuar a tomar meu bourbon favorito, Jack Daniels, que me faz lembrar um amigo que já morreu …”

“Isso tudo, é claro, se houver tempo …”

“A hora para comer morangos é sempre agora. O passado já foi. O futuro ainda não chegou. Passado e futuro são tempos que não fazem parte da nossa vida. O único tempo que está vivo e nos pertence é o agora. Então, é nesse agora que estamos vivendo que devemos comer o nosso primeiro morango”.

“Agora, minha neta, que morango vamos comer? Um poeminha da Cecília Meireles? Um bombom de chocolate suíço? Um sorvete? Uma partida de damas?…”

“Você começou essa conversa perguntando se eu vou morrer. É provável que eu morra dentro de um tempo não muito longo. Mas vou me esforçar para encher esse tempo que me resta com morangos vermelhos cheios de alegria…”.

 Alves, R. (2009). Câncer. Em, Desfiz 75 anos. (pp. 86-93). Campinas, SP: Papirus.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s