Jane Austen, as mulheres e eu

por Priscilla Lima

Li “Orgulho e preconceito” e “Razão e sensibilidade” no início dos anos 2000 quando chegava à vida adulta. Me apaixonei por Austen. Sua escrita é leve e fluida – não é à toa o fato de ser uma das escritoras imortais da literatura universal e um dos ícones da literatura e cultura inglesa. Suas histórias conseguem prender a atenção do leitor. Depois de uma década e meia me reencontrei com Jane Austen. Confesso, entretanto, que hoje o entusiasmo não foi o mesmo…

No último mês, li “Mansfield Park” (1814) e “Emma” (1815). Foi uma leitura relativamente rápida – foram mais de 600 páginas. Mas sem o encanto de antes. Obviamente que amadureci e mudei nesses últimos 15 anos (ainda bem! rs), e minha visão da literatura e do lugar da mulher se transformou radicalmente. Mesmo assim, fiquei instigada por não ter mais o deleitamento de antes com a leitura dos romances. Instigada, fui analisar… a mim e as obras lidas.

Austen viveu entre 1775 e 1817. Era filha de uma família da nobreza agrária inglesa. Esse contexto é amplamente retratado em seus romances. Mas diferentemente de suas heroínas, Austen nunca se casou. Surgiu daí um questionamento: Por que não retratar em seus enredos essa possibilidade de felicidade para a mulher fora do destino social imposto?

Emma, sua heroína em livro homônimo, afirma categoricamente que nunca se casaria pois nunca conseguiria abandonar o pai que dependia de seus cuidados. Ao tentar fugir do destino social do casamento e de ter que se dedicar aos cuidados de marido e filhos, Emma acaba por aceitar outro: o destino de ser cuidadora de um outro homem – seu pai. Ao final, Emma abraça ambos os destinos. Em ‘Mansfield Park’, a heroína Fanny Price parece resignada a aceitar que nunca se casaria e gastaria seus dias cuidando da tia Bertram. Mas não é o que acontece no desenrolar da história.

Na construção do enredo de ‘Mansfield Park’ e ‘Emma’, Jane Austen utiliza, por diversas vezes, da ironia e da comicidade para descrever como a mulher existia para o entretenimento masculino. Seja para tocar algum instrumento, cantar, pintar ou conseguir estabelecer uma boa conversa, a função da mulher – seja no casamento ou nas reuniões sociais – era entreter. Diversas personagens de ambos os romances são retratadas como fúteis e superficiais quando se apegam a esses valores.

A protagonista Emma, entretanto, apesar de saber tocar piano e cantar, nunca foi uma moça perseverante em aprender e aprimorar seus ‘talentos’. Tinha ideias próprias que envolviam discussões políticas e sociais. Mas todas as suas tentativas de subversão da ordem social são frustradas. Citarei duas.

A primeira que destaco é a tentativa de Emma em ajudar sua amiga Harriet – filha bastarda de um pai desconhecido e criada em um internato – a ser educada com os valores e ‘bons modos’ da aristocracia e se casar com alguém que fosse de uma classe social superior à sua. A sociedade inglesa até o período entre as grandes guerras era extremamente preconceituosa com casamentos de pessoas de classe sociais diferentes. Ainda mais se fosse um casamento com alguém ‘sem procedência’, ou seja, bastarda. Emma assume o papel de casamenteira, mas todas as suas tentativas são frustradas, e Harriet acaba se casando com um jovem pobre tal como ela.

A segunda tentativa de subversão que destaco é a tentativa de Emma em permanecer solteira. Ao perceber as mudanças ocorridas durante a primavera e o verão, Emma se dá conta de sua solidão e de como apenas cuidar do pai não lhe satisfazia mais. Além disso, perderia o contato com os amigos e amigas que se casariam no próximo inverno. Se depara, então, com sentimentos de afeto nunca antes percebidos por um cavalheiro de seu círculo social. Emma, quase que em uma epifania, se percebe enamorada, e aceita se casar. Seu futuro marido se mudaria para sua casa e ela poderia continuar cuidando de seu pai. Seu destino permanecia selado entre o cuidado do marido e do pai.

O casamento de Emma trouxe benefícios financeiros e aumento do patrimônio familiar, e o casamento de Harriet lhe assegurou um futuro fora da pobreza. Entretanto, esses fatores não foram determinantes, pois ambos os casamentos foram por amor. Em uma época em que o casamento era visto como uma transação comercial, Austen consegue de alguma forma subverter esse aspecto em seus enredos. Além disso, a autora destaca e valoriza a importância da mulher que possui alguma fortuna e consegue ser ‘independente’ em suas escolhas. Emma, além de ter essa ‘independência’ financeira, tinha um modo peculiar e autônomo de pensar acerca do casamento e da função da mulher na família e nos círculos de amizade. Austen fortalece, assim, na vanguarda de seu tempo, o discurso feminino. De fato, suas heroínas são mulheres fortes, com princípios éticos que as destacam como resistência ante a hegemonia.

Em ‘Mansfield Park’, vemos a ascensão de uma jovem pobre e discriminada socialmente, cuja conduta ética se opõe ao observado em suas primas ricas cortejadas por todos os homens. Podemos pensar que em ‘Mansfield Park’ temos o enredo de uma gata borralheira que se torna princesa. Fanny Price, a heroína, sai da pobreza e obscuridade graças à caridade de seus tios aristocratas. É uma bela história de amor, mas com graves denúncias à divisão de classes e ao esnobismo da aristocracia e burguesia inglesas.

Por mais que Fanny represente a possibilidade da mulher modificar seu destino, as outras mulheres do romance não têm desfechos favoráveis. Suas tias, esnobes e superficiais, são relegadas a um segundo plano e suas ações são sempre vistas de forma pejorativa. Suas primas, apesar de voláteis e caprichosas, rompem com certos padrões sociais. E sofrem com suas escolhas. Sua prima mais velha – Maria Bertram –, depois de casada, foge com o amante, se separa dele e é obrigada a viver em exílio dentro de Mansfield Park. A outra prima – Julia Bertram – foge com o namorado, mas para se casar.

Apesar de tentarem escapar de seus destinos, é evidente a punição social. Maria é punida e se torna uma espécie de pária – condenada a nunca mais poder aparecer em público, renegada pelo pai e pela sociedade. Julia é vista como a que aceitou se casar contra a vontade do pai e escolheu um casamento ‘impróprio’, já que seu marido não tinha a mesma riqueza e ‘classe’ que sua família.

Parece não haver alternativa.

Claro que os enredos de Austen são, antes de tudo, denunciadores da sociedade vitoriana, machista e misógina. Mas me incomodou profundamente essas mulheres criadas por ela não terem outros destinos ou não poderem escolher outros destinos sem serem punidas. Como a própria Jane Austen fez.

Isso me fez refletir sobre a situação da mulher na contemporaneidade. Nossos destinos não são muito diferentes daqueles das heroínas austenianas. Ao escolhermos nossos destinos (se é que essa liberdade não é ilusória), muitas vezes, não o fazemos sem sermos punidas. Quando uma mulher escolhe não se casar, ou decide não ser mãe, ou se afirma profissionalmente e exige tratamento igualitário aos homens, ou fala abertamente sobre sua sexualidade, ou luta por respeito, muitas vezes a cobrança e o preconceito vêm acompanhando. Apesar de termos conquistado inúmeros avanços desde a época de Austen, ainda não somos donas de nossos destinos. As mulheres que assumem um discurso feminista ainda são perseguidas e ameaçadas. O Brasil é, atualmente, um dos campeões em feminicídio e violência contra a mulher. As mulheres, nos mesmos cargos que homens, recebem um salário inferior. E os exemplos são inúmeros…

Apesar dos enredos austenianos não mais me atraírem, sua discussão ainda é atual. Quantas Emmas, Harriets, Fannys, Marias e Julias ainda tentam lutar por sua autonomia e por seus destinos, e são silenciadas e punidas. Quantas tentam bancar seu desejo e são mortas, violentadas e silenciadas. Quantas não acham ‘natural’ a mulher precisar de um homem para se sentir protegida.

Questões como essas, e tantas outras, ainda precisam ser discutidas à exaustão. Precisamos avançar…

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