‘J. R. R. Tolkien – senhor da fantasia’: ressalvas

por Priscilla Lima

Publicada originalmente em 2001 na Inglaterra, a biografia “J. R. R. Tolkien, o senhor da fantasia” (“Tolkien: a biography”, no original) foi publicada, no Brasil, em 2013 pela editora Darkside. Essa editora nasceu em 2012 com o objetivo de alcançar um nicho ainda pouco investido no Brasil – o do terror e da fantasia. Além disso, a Darkside tem outro diferencial: a estética de suas edições é primorosa. Remontando às encadernações e capas de livros antigos, a edição comemorativa dos 125 anos de nascimento de Tolkien, reeditada em 2016, vem acompanhada de um mapa da Terra-média desenhado pelo próprio Tolkien.

O biógrafo, Michael White, é um escritor britânico formado na King’s College de Londres e foi professor de química em Oxford entre 1984 e 1991. Grande parte de seus livros são biografias de grandes personagens, como Stephen Hawking (1992), Einstein (1993), Darwin (1995), Newton (1997), da Vinci (2000), Maquiavel (2004), C. S. Lewis (2004) e Galileu (2007). Apesar de sua vasta experiência em biografias, essa de Tolkien está longe da excelência. Destaco, aqui, alguns pontos que considero bastante negativos e que fazem com que essa biografia não faça jus ao que Tolkien foi e representa para a literatura universal.

De um modo geral, é uma biografia de fácil leitura, com capítulos não muito longos, construídos de forma bem objetiva. Mas é justamente aí que percebo um primeiro equívoco do texto de White. A objetividade foi excessiva. Principalmente no que se refere às referências aos documentos consultados para a construção da biografia. São raríssimas as citações literais. Qualquer leitor leigo ou estudioso de Tolkien espera, ao se deparar com uma biografia, encontrar trechos dos diários, cartas e relatos que ajudam a compreender melhor a sua trajetória. Além de trazerem uma proximidade maior com a realidade histórica do biografado.

Outro ponto negativo que destaco é o fato de que a escrita de White e a tradução apresentam diversos erros gramaticais e problemas de coesão textual. Alguns encadeamentos argumentativos simplesmente não fazem sentido. O texto parece não ter sido devidamente revisado e o próprio autor parece ter escrito de forma pouco criteriosa. Tolkien, como o próprio White descreve, era extremamente criterioso com sua escrita e revisava inúmeras vezes cada frase e palavra que escrevia. Além de ser um filólogo e especialista da linguagem. Qualquer biografia de Tolkien deveria, minimamente, ser bem escrita, para estar à altura do rigor textual do grande Tolkien e da elegância de seu texto.

Mas esses não são os únicos problemas que observo nessa biografia.

No capítulo 5, “Mundos fantásticos”, White tenta explicar de onde, em sua história, Tolkien retira os elementos para a construção de sua mitologia. Em uma análise rápida e superficial, White tenta associar a ausência do irmão Hilary com a criação de personagens imaginários, o interesse por línguas e mitos antigos com a morte precoce de sua mãe, e o mundo mítico da Terra-média com o tempo da infância. A partir de Freud, sabemos que o escritor criativo retira da própria fantasia os elementos para a criação estética. O devaneio do adulto, o faz-de-conta da criança e a criação estética do artista têm suas raízes no inconsciente e na busca de prazer imerso na fantasia. Entretanto, o que White faz é, sem qualquer embasamento teórico mais aprofundado, afirmar de onde e como Tolkien constrói sua mitologia. Isso se mostra problemático, pois cai no erro de uma análise ‘selvagem’ e apressada. De fato, a infância e as perdas precoces de Tolkien muito contribuíram para sua genialidade. Seu empenho por compreender os primórdios civilizatórios, por criar uma mitologia nórdica e por investigar e estudar as línguas originárias do inglês parecem refletir uma necessidade de compreensão de sua própria origem. Mas qualquer afirmação e análise nesse sentido precisa ser fortemente embasado – seja teoricamente, seja com documentos que façam alusão a isso.

Parafraseando Shakespeare, Freud (1907/2015, p. 16) ressalta que os escritores criativos são “aliados valiosos e seu testemunho deve ser altamente considerado, pois sabem numerosas coisas do céu e da terra, com as quais nem sonha nossa filosofia”. White, de certa forma, tenta fazer isso: compreender certos aspectos do humano presentes na mitologia tolkiana. Os últimos parágrafos do livro são dedicados a tentar uma aproximação com o conceito junguiano de arquétipos. Mas, novamente, o biógrafo se mostra apressado em suas afirmações e não consegue explorar a riqueza da obra e da vida de Tolkien.

Outro problema que destaco se refere à descrição e análise que White faz de C. S. Lewis e sua amizade com Tolkien no capítulo 8 “Mundo dos homens”. O biógrafo faz a seguinte descrição de Lewis:

Talvez por conta de sua origem relativamente privilegiada, Lewis parecia mais refinado do que Tolkien, seus interesses eram mais amplos e era uma figura muito mais incomum de várias maneiras. Enquanto Tolkien era um esposo respeitável e pai de quatro crianças, Lewis levava uma vida completamente às avessas, era considerado um boêmio, quase esquisito para os padrões da época. Não era casado, mas dividia a casa com uma mulher divorciada e muito mais velha, Janie Moore, uma irlandesa miseravelmente instruída que Lewis havia conhecido durante a guerra, quando ela tinha 45 anos e ele, apenas 19. (…). Mas, toda vez que Lewis se referia à sua companheira, a chamava de ‘senhora Moore’ e ela era tanto uma mãe quanto uma amante para ele. Ela também era algo misteriosa para os amigos de Lewis. Jack [apelido de Lewis] nunca levava a senhora Moore para as atividades sociais; muitos dos que o conheciam bem a encontravam muito raramente (…). Tolkien sabia quase nada sobre tal mulher, exceto que ela parecia ter uma influência emocional estranha sobre Jack. Muitos em Oxford a consideravam algo tola, pois, a partir das menções ocasionais que Jack fazia a seu respeito, ela parecia tagarelar abundantemente e era conhecida por ser quase insanamente possessiva com Lewis (p. 121).

Confesso que ao chegar a esse ponto da leitura, quase abandonei o livro. As afirmações de White, além de serem extremamente preconceituosas no que diz ao status do casamento de Lewis, são machistas e misóginas. Lewis foi um professor de Oxford, uma das universidades mais conservadoras da Inglaterra, que desafiou os padrões sociais da época. Assumir seu relacionamento com uma mulher mais velha e divorciada precisa ser considerado positivamente e não como um comportamento “esquisito”. Ao colocar o relacionamento conjugal de Lewis em comparação com o de Tolkien, White revela seu próprio preconceito.

Sua descrição da senhora Moore remonta à imagem estereotipada e humilhante da mulher como uma ‘louca possessiva’, ‘tagarela’ e ‘tola’. Além disso, não traz qualquer documento que demonstre suas afirmações. A senhora Moore teve papel fundamental na vida e na carreira de Lewis, conforme constata McGrath (2013). Foi ela quem forneceu apoio emocional e consolo para Lewis durante sua ida para a guerra e durante seu retorno e convalescença dos ferimentos de combate. McGrath afirma que “a senhora Moore criou para Lewis um ambiente relativamente estruturado e estável quando ele retornou da guerra, facilitando sua transição para a vida acadêmica” (p. 115). Independentemente se sua relação com ela era mais maternal que conjugal, o fato é que ela auxiliou Lewis a ampliar seu círculo social e a desenvolver habilidades relacionais e emocionais que lhe foram fundamentais para consolidar sua carreira acadêmica e se tornar um grande escritor.

Esse olhar preconceituoso de White à senhora Moore também é observado em alguns momentos em relação à Edith Tolkien, esposa de Tolkien. Em algumas passagens, o biógrafo se refere a ela como sendo pouco instruída, incapaz de compreender o que Tolkien e seus amigos discutiam, e pouco sociável. Para além de uma descrição da personalidade de Edith, as colocações de White transparecem um olhar que desconsidera o papel importante dela na trajetória de Tolkien. A estabilidade cotidiana e o acolhimento oferecidos por Edith, além da sua capacidade resiliente em suportar as diversas intempéries financeiras e mudanças constantes de residência, foram fundamentais para que Tolkien pudesse se dedicar à sua criação. Além disso, em uma época em que as mulheres tinham seu acesso dificultado à educação e ao conhecimento acadêmico, dificilmente Tolkien teria se casado com alguma mulher intelectual. O papel de Edith e da senhora Moore precisam ser analisados para além de afirmações apressadas que reforçam o preconceito em relação às mulheres.

À guisa de conclusão, a leitura de “J. R. R. Tolkien, senhor da fantasia” vale como um panorama geral da vida desse grande escritor. Para quem não conhece a vida de Tolkien e busca uma iniciação para compreender sua vida e sua obra, a leitura é recomendada. Mas com ressalvas.

Referências bibliográficas
Freud, S. (2015). O delírio e os sonhos na Gradiva. Em, Obras completas (vol. 8, pp. 13-122). (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra originalmente publicada em 1907).
McGrath, A. (2013). A vida de C. S. Lewis: do ateísmo às terras de Nárnia. (A. Pisetta, Trad.). São Paulo: Mundo Cristão.
White, M. (2016). J. R. R. Tolkien, o senhor da fantasia. Edição comemorativa. (B. Dorigatti, Trad.). Rio de Janeiro: DarkSide Books. (Obra originalmente publicada em 2001).

 

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