Seu último olhar

por Ana Gabriela Lima

De repente, ouvimos uma explosão. Meu irmão já estava agitado, como se estivesse pensando “o que estou fazendo em casa?”. Nós sabíamos que era um grande perigo morarmos tão perto dos invasores. Mas era o que podíamos pagar. Já tínhamos perdido muito com a morte de papai, que era do exército. Meu irmão e eu sofríamos muito, tanto economicamente como emocionalmente.

De lembrança, fotos e meu irmão – praticamente gêmeo do meu pai. Ambos eram muito corajosos, além de terem uma vontade extrema de ajudar, a ponto de sacrificar a própria vida pela de alguém. Eu admirava isso, ou deveria admirar. Mas como admirar a possibilidade de morte de meu irmão?

Ele subitamente levantou-se, chegando à porta. Seu intuito era ir para a guerra, salvar pessoas. Mas nem uma arma ele tinha. Como? Eu o segurei e olhei em seus olhos. Ele me olhou, igualmente. Em seus olhos percebi um pouco de medo, mas a coragem os tomava. Também vi a saudade e a vontade de honrar meu pai. Apenas o perguntei com os olhos: “mas e se…”.

Meu irmão balançou a cabeça, negando a possibilidade. Me abraçou e… Olhou nos fundos dos meus olhos. Sumiu depois de passar pela porta.

Por aquela porta, ele nunca voltou. Uma tristeza envolveu a mim e a minha mãe. Tínhamos perdido outro membro da família, na mesma guerra, pela mesma causa.

E tudo o que eu lembrava era de seu último olhar.

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