O Silmarillion – esperança e resistência em meio às trevas

por Priscilla Melo Ribeiro de Lima

O Silmarillion, escrito por Tolkien e publicado após sua morte, traz em seu escopo diversas histórias que vão se entranhando e se articulando. Desde o relato da criação da Terra por Ilúvatar, até sua quase completa devastação promovida por Melkor/Morgoth. Nessa saga dos primórdios da criação do mundo e da humanidade – Primeira, Segunda e parte da Terceira Era – os relatos são encantadores e instigantes. Uso a palavra relatos porque, apesar de serem histórias inventadas por Tolkien, elas têm como fonte alguns textos antigos da mitologia nórdica. A partir de textos muito antigos, como Bewoulf cujo manuscrito mais antigo é do ano 1000, Tolkien (re)constrói diversas histórias que remontam à forma como diversas culturas nórdicas compreendiam a história do mundo pré-civilizatório – ou melhor, dos primórdios do mundo. Faço essa ressalva porque, nessa mitologia (re)criada, outras civilizações existiam antes e co-existiam com a civilização humana – como a civilização dos Elfos e dos Valar.

A narrativa vai desde o início do mundo até a destruição de suas características paradisíacas e de seu funcionamento na dependência divina. O estilo de Tolkien envolve o leitor desde as primeiras páginas. Me encantei com a criação das Árvores Telperion e Laurelin que iluminavam Valinor – a cidade dos Valar, seres divinos criados pela divindade maior Ilúvatar. Sofri e me angustiei com as histórias sobre o destino cruel de Húrin e seus filhos Turin e Lalaith. Me emocionei e me entristeci com a história dramática do amor entre Beren, um humano, e Lúthien, uma Elfa. São muitos os relatos de bravura, lealdade, traição, amor e amizade que Tolkien nos narra. Sua capacidade narrativa leva o leitor a visualizar a Terra-Média e o envolve nas tramas e tragédias vividas pelos Valar, Elfos e Homens.

Mas a leitura não é fácil. Ao contrário de O Senhor dos Anéis, cuja leitura é fluida, O Silmarillion apresenta trechos bastante densos e vagarosos. Assim, apesar de no início do livro a descrição da criação do mundo e de seus seres ser belíssima, por diversos trechos a leitura se torna um pouco cansativa. Provavelmente isso deve a dois motivos. O primeiro seria a necessidade de Tolkien em descrever minuciosamente como ele idealizou a criação do mundo e dos diversos seres. Ele descreve, de maneira muitas vezes melódica e lenta, a criação e gestão do mundo pelos Valar. Cada Valar é apresentado em sua função, desde a criação da relva e das árvores, até os rios e mares, o Sol e a Lua, as montanhas e os animais. Além disso, Tolkien descreve a criação dos seres que iriam de fato governar a Terra-Média – os Primogênitos imortais (Elfos) e os Sucessores mortais (Homens).

O segundo motivo para a exposição minuciosa provavelmente se deu pelo fato de que Tolkien não conseguiu finalizar o livro em vida. Melhor dizendo, ele finalizou, mas não conseguiu terminar as revisões que achava necessárias para conseguir publicá-lo. Em seu testamento, deixou essa função a seu filho Christopher Tolkien que, segundo Tolkien, era o único que depois dele mesmo poderia terminar esse trabalho. Assim, Christopher teve um trabalho monumental de reunir as várias versões e correções do texto que Tolkien deixou. Penso que, em uma tentativa de não mexer e alterar o texto do pai, o filho reuniu os rascunhos e textos prontos e os editou em um texto coeso, mas que, em alguns momentos, ficou bastante repetitivo. Em introdução ao livro Contos inacabados, Christopher Tolkien (1980/2009) afirma: “Para mim, estava fora de questão que O Silmarillion permanecesse desconhecido, a despeito das intenções, conhecidas, porém em sua maioria irrealizadas, que meu pai tinha de transformá-lo” (p. xi).

Mas o livro como um todo é uma belíssima e genial obra. Tolkien não apenas criou um universo mitológico, como também desenvolveu de forma bastante coerente várias civilizações. Essas civilizações, além de terem personagens com histórias que se entrecruzam, tinham suas próprias línguas também criadas por Tolkien. Na verdade, as histórias que compõem O Silmarillion, das quais deriva O Senhor dos Anéis, foram construídas para dar sustentação para a língua criada por Tolkien. Daí vemos a sua genialidade.

Além disso, suas histórias e seus personagens têm relações entre si. Ao mesmo tempo, o livro tem diversas histórias que podem ser lidas e estudadas separadamente. Por exemplo, o leitor não precisa conhecer sobre como Ilúvatar criou o mundo e os Valar para compreender a história de amor de Beren e Lúthien.

Entretanto, personagens presentes nessa tragédia se interligam à criação do mundo e ao surgimento do mal. Como exemplo temos a relação de Melkor/Morgoth – Valar dissidente – com Thû ou Sauron (personagem que aparece pouco depois da insurgência de Melkor/Morgoth e que é o grande vilão da saga do anel). O mesmo acontece com diversas outras histórias.

Algumas constantes podem ser observadas, como uma espécie de pano fundo ou mesmo como um fio de Ariadne – a fragilidade do coração dos homens e a capacidade ardilosa do mal em corromper tudo o que é bom. Tolkien relata:

Sauron [anos depois da derrocada final de Melkor/Morgoth e sua própria derrota] descobriu que os homens eram os mais fáceis de influenciar dentre todos os povos da Terra; mas por muito tempo procurou convencer os elfos a lhe prestarem serviço, pois sabia que os Primogênitos tinham maior poder. E andava livremente em meio a eles, e sua aparência ainda era de alguém belo e sábio. […]. Pois Sauron adotou o nome de Annatar, Senhor dos Presentes, e a princípio muito proveito eles tiraram da amizade com ele (O Silmarillion, 1977/2011, p. 365).

E essa corrupção do coração dos homens se dá, em grande parte, de maneira bastante velada e lenta. Como a penumbra do anoitecer que cresce devagar até se transformar em escuridão completa. Melkor/Morgoth – o Valar invejoso e ciumento – por diversas vezes se levanta contra toda a criação de Ilúvatar e, mesmo derrotado e castigado, consegue se reerguer. Mesmo após sua derrota final, sua influência permaneceu sobre Sauron e os homens:

Quando as Thangorodrim [Montanhas da Tirania erguidas por Morgoth] foram destruídas, e Morgoth, derrubado, Sauron voltou a assumir sua bela aparência, prestou votos de obediência a Eönwë, o arauto de Manwë [o principal dentre os Valar], e repudiou todos os seus atos maléficos. E sustentam alguns que de início não agiu assim com falsidade, mas que estava de fato arrependido, no mínimo por medo, já que ficara transtornado com a queda de Morgoth e a cólera imensa dos Senhores do Oeste [os Valar]. Mas não era da competência de Eönwë perdoar os que fossem seus iguais, e ele ordenou que Sauron voltasse a Aman [terra além-mar onde os Valar habitavam] para lá receber o julgamento de Manwë. Sauron então se envergonhou; e não dispôs a retornar humilhado e receber dos Valar uma sentença, talvez, de longa servidão, para provar sua boa-fé. Pois, sob o comando de Morgoth, seu poder era imenso. Portanto, quando Eönwë partiu, ele se escondeu na Terra-média; e voltou a cair no mal, pois os laços que Morgoth lançara sobre ele eram muito fortes (O Silmarillion, 1977/2011, pp. 363-364).

É como se o coração, uma vez marcado pelo mal, não conseguisse mais se livrar dele. A redenção total nunca é possível. É um destino trágico para criaturas gestadas com tanto investimento e expectativa por Ilúvatar. É o destino trágico da humanidade. Tanto no O Silmarillion quando em O Senhor dos Anéis, o homem não consegue se livrar das sombras de Melkor/Morgoth. Estamos fadados ao mal ou, no máximo, a lutar constantemente contra ele. Em tempos conturbados do mal em estado de propagação, se torna ainda mais difícil mantê-lo longe, pois são exatamente nesses momentos que o bem parece estar ausente. Em tempos em que o desassistido e o vulnerável são humilhados e não acolhidos, em que os ideais societários são atacados e destruídos, a esperança parece morrer e o desânimo se instaura.

Mas Tolkien nos traz um fio de esperança ao mostrar que mesmo em momentos de prevalência do domínio do mal, o bem não deixa de existir. Entre os homens numenorianos que se deixaram levar pela ganância do discurso de Sauron e cortaram a Árvore Branca Nimloth – símbolo da sabedoria e do conhecimento –, havia homens bons, como os Fiéis aos Valar que não se curvaram. Na história da Queda de Númenor (O Silmarillion, pp. 327-360), Amandil, seus filhos Elendil, Isildur e Anárion, e alguns Fiéis não cederam aos apelos de ganância e poder dos reis de Númenor. Dentre os três filhos de Amandil, Anárion morre em batalha contra Sauron, Isildur acaba sendo cegado pela sedução do Um Anel, mas Elendil e sua descendência permanecem fiéis. É dele que, centenas de anos depois, em O Retorno do Rei (Tolkien, 1954/2000), ressurge Aragorn, o herdeiro digno da espada de Isildur e do trono de Elendil, que restaura a paz entre os homens.

Assim, mesmo diante da queda de nossos ideais e da instauração de um mundo de sombras, Tolkien parece nos trazer uma mensagem de esperança. Em meio à escuridão, a esperança precisa renascer, pois é ela que mantém os corações dos Fiéis firmes para que a empatia e o companheirismo ajudem a fortalecer quem precisa de ajuda.

Beren demonstra que o enfrentamento e a resistência é o que faz o mal se enfraquecer. A inteligência e o conhecimento de Lúthien são necessários para que, em território inimigo, tenhamos a leveza que se sobrepõe ao medo. E a persistência de Hurin e a coragem de Eärendil nos ensinam que lutar pelos ideais humanos e ter a coragem de denunciar a maldade reacendem a esperança.

Em tempos sombrios, em que o obscurantismo prevalece e a estupidez se torna louvável, Tolkien faz um apelo ao conhecimento. Conhecer o universo de onde viemos nos ajuda a traçar rumos futuros. Conhecer nossa história é o que nos inspira a não repetir os erros do passado. Nos afastar de nossas raízes e cortar fora o conhecimento, nos leva à queda.

Referências bibliográficas:

Tolkien, J. R. R. (2011). O Silmarillion (5ed.). (W. Barcellos, Trad.; C. Tolkien, Org.). São Paulo: Editora WMF Martins Fontes. (Obra originalmente publicada em 1977).

Tolkien, J. R. R. (2000a). O Senhor dos Anéis: as duas torres. (2ed.). (L. M. R. Esteves & A. Pisetta, Trads.). São Paulo: Martins Fontes. (Obra originalmente publicada em 1954).

Tolkien, J. R. R. (2000b). O Senhor dos Anéis: a sociedade do anel. (2ed.). (L. M. R. Esteves & A. Pisetta, Trads.). São Paulo: Martins Fontes. (Obra originalmente publicada em 1954).

Tolkien, J. R. R. (2000c). O Senhor dos Anéis: o retorno do rei. (2ed.). (L. M. R. Esteves & A. Pisetta, Trads.). São Paulo: Martins Fontes. (Obra originalmente publicada em 1954).

Tolkien, C. (2009). Introdução. Em, J. R. R. Tolkien, Contos inacabados: de Númenor e da Terra-média (pp. xi-xxi). (2ed.). (R. E. Kumse, Trad.). São Paulo: Editora WMF Martins Fontes. (Obra originalmente publicada em 1980).

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