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Poiesis de si

por Priscilla Lima

Nesse primeiro post, gostaria de retratar algumas questões levantadas por Aristóteles em “Poética” e no livro VI de “Ética a Nicômaco”. Em sua análise acerca da poesia, Aristóteles ressalta que, diferentemente do historiador que reconta a realidade, o poeta imita a vida e imita ações. Assim, ao imitar a vida, sua função não é recontar o que aconteceu, mas o que poderia acontecer, o que é possível. O poeta recria, dessa forma, a realidade e enuncia verdades universais. A poiesis – cujo sentido se assenta na criação de si mesmo e na fruição estética – aponta para um posteriori, mesmo se baseando em algo que já aconteceu. A elevação e a filosofia da poesia, apontadas por Aristóteles, se fazem presentes justamente na capacidade do escritor em transformar o passado e o presente em possibilidades de recriação do futuro.

Essa poiesis pode ser pensada através de sua estética e sua criação. A função estética da arte poética faz parte de sua essência, de acordo com Aristóteles (2007). Escrever acerca do humano, suas dores e alegrias, suas relações com o tempo, a natureza e os outros, oferece/provoca tanto no escritor quanto no leitor-espectador uma catarse. A vivacidade e a paixão são evidenciadas no texto e são a forma como o escritor vê e percebe a si mesmo, frequentemente de forma inconsciente. Ele retira de si mesmo os materiais para a construção do texto. Freud (1907/2015a) ressalta que o poeta tem acesso a fontes desconhecidas ou inacessíveis à psicanálise: “Os escritores criativos são aliados valiosos e seu testemunho deve ser altamente considerado, pois sabem numerosas coisas do céu e da terra, com as quais nem sonha nossa filosofia. No conhecimento da alma eles se acham muito à frente de nós, homens cotidianos, pois recorrem a fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência” (p. 16).

Para o escritor criativo, o exercício de rememoração se torna um exercício poético inevitável. Ele abre o livro da memória poeticamente – sua única forma de fazê-lo. Um escritor brasileiro, que nos ilustra claramente esse atributo próprio dos poetas, é Rubem Alves. Algumas crônicas do seu livro “A maçã e outros sabores” (2005) foram escritas a partir de vivências do presente que fizeram emergir lembranças e sabores do passado. Ao se deparar com uma cesta de maçãs, cujo aroma tomava conta de sua sala de aula, Alves é tomado por algumas lembranças (pp. 14-15):

A memória é poder estranho. Ela guarda coisas nas suas gavetas, coisas que nem sabemos que existem. Não adianta tentar abrir as gavetas. Elas só abrem quando querem. Pois assim aconteceu. Uma gaveta se abriu e dentro dela havia uma maçã vermelha, embrulhada num papel de seda amarelo. Era minha primeira maçã. Eu era um menino pequeno. Véspera de Natal. Meu pai estava viajando. Voltaria a tempo? Voltou. Trouxe-me presentes. Não me lembro de nenhum deles. Mas ele me trouxe uma maçã embrulhada em papel de seda amarelo. Naquele tempo, naquele lugar, uma maçã era fruta encantada, que crescia muito longe, em outros países. Atravessara mares para chegar até minhas mãos. Em Dores da Boa Esperança não cresciam maçãs. Mas eu ganhei uma maçã. (…). Gostaria que meu pai me desse de novo, como presente de Natal, uma maçã… Qual a metáfora que pus nessa maçã? Acho que foi o rosto de um menino sorrindo, encantado por ter ganhado uma maçã.

A lembrança da infância, a chegada do pai, o Natal, o presente… lembranças metaforizadas na maçã. O período em que Rubem Alves morou nos Estados Unidos foram anos de exílio, e também de transformações internas. A maçã parece metaforizar a pátria, terra natal, e a segurança da infância e do colo paterno. As palavras foram o lugar onde encontrou refúgio e uma forma de transcender o sofrimento. Alves desabafa: “eu precisava encontrar palavras que ajudassem o meu corpo a se gerar de novo, agora nesta triste condição de exilado. (…). Pensar a espera. Viver sobre a saudade. Ser capaz de plantar árvores à cuja sombra nunca me assentaria” (1995, pp. 159-160). Durante os anos de exílio, a escrita de Alves se modificou profundamente. Ao regressar ao Brasil, abandonou suas aspirações teológicas, se envolveu com a Educação e a literatura infantil, além de se tornar cronista. No decorrer de suas crônicas publicadas semanalmente em alguns jornais de grande circulação, percebemos as transformações que sofreu e uma nova forma de pensar a vida, a morte e as relações sociais. O sofrimento, o exílio e a saudade de seu lar foram componentes importantes para que a as palavras se tornassem uma nova forma de ser.

Mas a poiesis também possui uma segunda função – a criação.  O ato de escrever cria novas realidades e aperfeiçoa velhas realidades. A escrita de si, enquanto poiesis (construção) do eu, nas narrativas literárias, não apenas reconta trajetórias, mas reconstrói o si mesmo. Me salta aos olhos a afirmação de Borges (2000) de que “os antigos, quando falavam de um poeta – um ‘fazedor’ –, pensavam nele não somente como quem profere essas agudas notas líricas, mas também como quem narra uma história” (p. 51).

Quando a história narrada é a própria história, aspectos do ‘eu’ são transformados em palavras e podem ser remontados de diversas formas. A poiesis assinala, dessa forma, para a (re)construção do próprio eu de quem escreve. É a partir da palavra e pela palavra que o ‘eu’ se constrói. Voltando a Borges, a existência das palavras o ajudou a tecer a sua subjetividade e obter prazer: “Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou um crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia” (2000, p. 106). Como fato central da tessitura da subjetividade, a palavra é fundante do sujeito.

Para além da forma, a poiesis, conforme analisada por Aristóteles, abarca a maneira como o conteúdo é escrito. Em “Ética a Nicômaco”, Aristóteles (1991) destaca que toda arte (in)tenciona a produção e a criação de algo. Percebemos, aqui, toda a força pulsional tencionando o psiquismo a um trabalho.

Oswald de Andrade (1927/1990, p. 59), no poema “Balada do Esplanada”, afirmou: “(…) Pra m’inspirar/ Abro a janela/ Como um jornal/ Vou fazer a balada/ (…)/ Mas não há poesia/ Num hotel/ Mesmo sendo/ ‘Splanada/ Ou Grand-Hotel/ Há poesia/ Na dor/ Na flor/ No beija-flor/ No Elevador”. A poesia se encontra nas coisas aparentemente banais. Assim como nos sonhos e nos chistes, o inconsciente se apropria do acaso e de coisas aparentemente banais para, na escrita poietica, encontrar caminhos para a descarga pulsional. Há um trabalho psíquico presente na escrita semelhante ao trabalho onírico, ao brincar e ao fantasiar. Assim como a criança brinca, se constrói e realiza seus desejos em seu mundo fantástico, o adulto devaneia em busca da satisfação, e o escritor criativo adentra à fantasia, a transforma e a realiza. Freud afirma que: “Desejos insatisfeitos são as forças impulsionadoras das fantasias, e toda fantasia individual é a realização de desejo, uma correção da realidade insatisfatória” (1908/2015b, p. 57). Além disso, as fantasias “são muito mais adaptáveis às mudanças das impressões da vida, recebendo de cada nova e eficaz impressão uma conhecida ‘marca do tempo’” (p. 58).

A cada nova abordagem de um mesmo fato, ressignificações são feitas. Bakhtin afirma que o objetivo do artista é encontrar o enfoque essencial à vida de fora dela é. Com isso, “o artista e a arte criam uma visão absolutamente nova do mundo” (1979/2010, p. 176). A cada nova escrita, por vezes sobre o mesmo assunto, nova visão do mundo e da vida renasce. Não apenas isso, abre-se uma possibilidade para a reescrita do passado e da própria subjetividade do escritor. O conteúdo dos escritos criativos é usualmente despertado por alguma experiência no presente que provoca alguma lembrança passada – como o cheiro das maçãs ou sabor da madeleine embebida no chá. Dessa forma, além de retratarem os desejos insatisfeitos do poeta, as fantasias poetizadas dizem respeito à forma como seu presente é vivenciado e faz alusão a um futuro, já que a realização de qualquer desejo aponta a um posteriori.

Referências bibliográficas:

Alves, R. (1995). O quarto do mistério. Campinas, SP: Papirus.

Alves, R. (2005). A maçã e outros sabores. Campinas, SP: Papirus.

Andrade, O. (1990). Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade. São Paulo: Globo. (Obra original publicada em 1927).

Aristóteles. (1991). Ética a Nicômaco (4 ed.). (L. Vallandro & G. Bornheim, Trads.). São Paulo: Nova Cultural.

Aristóteles. (2007). Poética. (A. M. Valente, Trad.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Bakhtin, M. (2010). Estética da criação verbal (5 ed.). (P. Bezerra, Trad.). São Paulo: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1979).

Bosi, E. (2007). Memória e sociedade: lembranças de velhos (14 ed.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1979).

Borges, J. L. (2000). Esse ofício do verso. São Paulo: Cia das Letras.

Freud, S. (2015a). O delírio e os sonhos na Gradiva de W. Jensen. Em Obras completas (vol. 8, pp. 13-121). (P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1907).

Freud, S. (2015b). O poeta e o fantasiar. Em Obras incompletas de Sigmund Freud – Arte, literatura e os artistas (pp. 53-66). (E. Chaves, Trad.). Belo Horizonte: Autêntica. (Obra original publicada em 1908).